MAM: A origem do movimento

No contexto do capitalismo neoliberal, mais de 53 mil milhões de animais sencientes (terrestres) são mortos com vista à produção de “carne”, sobretudo na região Norte do globo (Américas e Europa). Embora inúmeros estudos apontem os severos impactos da indústria da agropecuária ao nível dos direitos dos animais não-humanos, da saúde humana e da gestão dos recursos naturais (e.g., FAO, 2006), a produção mundial de “carne” passou de 191 milhões de toneladas, em 1993, para aprox. 300 milhões de toneladas, em 2010. À semelhança dos restantes países europeus, Portugal aumentou a produção de “carne” nas últimas duas décadas, tendo atingido 788 milhares de toneladas em 2010 (FAOSTAT, 2013).
O complexo industrial-animal está hoje organizado a partir do exercício da violência (estrutural) contra os “meat animals”: estes são confinados a espaços exíguos, insalubres e, muitas vezes, sem luz solar ou artificial. Além da regulação mecânica de comportamentos naturais (e.g., procriação, aleitamento e alimentação), os animais não-humanos são sujeitos a diferentes tipos de mutilação, sem recurso a anestesia, tais como a castração, o corte de cauda, o debicar, o descornar, entre outros. Injectam-lhes hormonas, vacinas e antibióticos para acelerar o crescimento e o desenvolvimento da massa corporal. É frequente a auto-mutilação, o aparecimento de doenças (e.g., claudicação crónica) e/ou de infecções (e.g., inflamações nos úberes). São ainda impedidos de criar e participar em actividades lúdicas específicas da sua espécie, são‐lhes quebradas as relações de parentesco desde a tenra idade, estabelecem relações sociais muito limitadas, não conseguem comunicar idoneamente com membros do seu grupo. Durante o transporte para os matadouros, surgem frequentemente doenças diversas, uma vez que os animais não-humanos são mantidos em espaços pequenos, deslocados em grande número, sob o uso reiterado de violência física (CiWF, 2006).

2a TCS_Dec2012-5066
Jo-Anne McArthur/”We Animals”, Canadá, 2013

A exploração (industrial) dos animais não-humanos, através da apropriação sistemática dos seus corpos, está profundamente radicada no especismo. Este corresponde não só a uma forma de preconceito contra os indivíduos que não pertencem à espécie humana, mas designa também um conjunto de instituições materiais, discursos e narrativas culturais e “embodied affects” que garantem e perpetuam a subordinação dos animais não-humanos (Weitzenfeld & Joy, 2014). O especismo é acolhido, de forma crescente, como um sistema de opressão que se intersecciona com os demais, tais como o sexismo, o racismo, o heterossexismo, a xenofobia, o capacitismo, o cissexismo, o classismo, o ageísmo, o etnocentrismo, o (neo)colonialismo, o capitalismo, o sionismo, entre outros.
Enquanto sub-ideologia do especismo, o carnismo condiciona, sustenta e legitima o consumo de (determinados) animais não-humanos (Joy, 2010). Baseado numa hierarquização inter-espécies, o carnismo atribui diferentes graus de comestibilidade a animais não-humanos conforme a sua espécie de pertença: os “meat animals” tendem a corresponder aos animais exclusivamente herbívoros, aos quadrúpedes e aos ruminantes domesticados (e.g., vaca, galinha e porco), ao passo que as espécies não-edíveis incluem os “animais de companhia”, os primatas, os carnívoros e os roedores. Diferentemente dos “pet animals”, os “meat animals” constituem meros utensílios destinados à satisfação dos interesses humanos, com os quais não é expectável o desenvolvimento de relações afectivas e de proximidade.

dana ellyn, 2015
“Party Hats”, Dana Ellyn, 2015

No sentido de contribuir para a erradicação da violência especista, a Marcha pela Abolição dos Matadouros (MAM) tem sido realizada, desde 2012, em diferentes países (e.g., Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, EUA, França, Índia, Reino Unido e Suíça), envolvendo um crescente número de activistas. Embora utilize na sua designação o vocábulo “matadouros”, a MAM vai mais além no seu propósito e procura endereçar as multi-dimensões que estão subjacentes à produção e ao consumo de animais não-humanos, isto é, o especismo, a ideologia carnista, a ontologização dos animais não-humanos em bens de consumo, o complexo industrial-animal e suas articulações com o capitalismo, etc.

BERNE, 2014
Marcha pela Abolição dos Matadouros, Berna, 2014

No âmbito desta rede internacional, foi criado recentemente no contexto português o Movimento pela Abolição dos Matadouros (MAM-Portugal), que visa servir de espaço de convergência para diferentes activistas anti-especistas, agilizar a organização das acções pré-marcha e da MAM, assim como contribuir para a promoção do activismo anti-carnista/abolicionista e para a (re)significação dos animais não-humanos a partir de perspectivas emancipatórias. Baseado num compromisso político com a transformação social radical, o MAM-Portugal encerra os seguintes princípios basilares:

  • Anti-especismo: Enquanto movimento filosófico, político e social, o anti-especismo luta contra a supremacia humana e a consequente subordinação das demais espécies. O MAM-Portugal considera os animais não-humanos como sujeitos de valor intrínseco, que possuem a capacidade de agência e de resistência, reconhecendo as suas subjectividades, interesses e experiências; bem como acolhe o veganismo comprometido como uma praxis importante para pôr fim à instrumentalização dos animais não-humanos e a todas as dimensões do complexo industrial-animal (e.g., alimentação, vestuário, experimentação e entretenimento).
  • Interseccionalidade: Indo além de uma abordagem interseccional antropocêntrica, o MAM-Portugal visa combater o especismo e questionar o modo como este se intersecta actualmente com outros sistemas de opressão (e.g., sexismo, racismo, heterossexismo, capacitismo, classismo e imperialismo), ao mesmo tempo que procura desafiar os múltiplos sistemas de dominação através de políticas de aliança com os demais movimentos sociais.
  • Anti-capitalismo: A emergência da ordem económica capitalista esteve estreitamente relacionada com a manutenção de relações de poder especistas. O capitalismo neoliberal converteu os animais não-humanos em “biomachines” com vista à maximização da produtividade e das receitas. O MAM-Portugal sustenta que a erradicação do especismo e do carnismo deve ir além da mera mudança de padrões de consumo e exigir a abolição do capitalismo enquanto sistema que legitima e perpetua relações de dominação (relativamente aos animais não-humanos).
  • Horizontalidade, autonomia e apoio mútuo: Em oposição à hierarquia, aos princípios do individualismo (neoliberal) e às instituições de autoridade, o MAM-Portugal constitui uma estrutura horizontal que potencia a igualdade, a autonomia e as relações de cooperação, assim como fomenta a capacidade activa (em vez de reactiva). Todxs xs activistas participam, de forma directa, nos processos de tomada de decisão colectiva, na definição de estratégias políticas contra o especismo e na construção de novos modelos de organização social com vista à abolição de todas as formas de opressão contra xs animais humanxs e não-humanxs.

Depois de Paris, Berlim, Deli e de outras inúmeras cidades, Lisboa acolherá, no dia 4 de Junho de 2016, a Marcha pela Abolição dos Matadouros. Em jeito de preparação para a marcha, o MAM-Portugal organizará mais de 25 iniciativas (e.g., exibição de documentários, debates/tertúlias, projecções fotográficas e acções de rua) que, entre os meses de Abril e de Junho, decorrerão em cinco cidades portuguesas (Almada, Braga, Coimbra, Lisboa e Porto). Pela abolição dos matadouros. Pela erradicação do especismo, do carnismo, da exploração (capitalista) dos animais não-humanos. Pelo fim de todas as formas e práticas de injustiça social e de discriminação decorrentes dos múltiplos sistemas de opressão. Pela Libertação Animal!

* A senciência consiste na capacidade de sentir emoções e sensações (e.g., dor, prazer, fome, sede, calor, frio, etc.). O animal não‑humano senciente é capaz de interpretar informação, compreender o seu contexto, estabelecer relações com os seus pares, analisar perigos. A senciência não significa, necessariamente, a posse de capacidades complexas de entendimento, aprendizagem e/ou intelectualidade, embora também as possa incluir.

** Este texto recorre à expressão “animais não-humanos” ao invés de “animais” ou “animais irracionais”; ainda que a opção “animais não-humanos” parta da negação do “humano”, esta não conceptualiza, de forma explícita, este grupo de indivíduos como inferiores, ao mesmo tempo que enfatiza a ideia de que xs humanxs também são animais. Além disso, utiliza aspas para referir designações utilitárias ou expressões gastronómicas que estão imbricadas na cultura carnista/especista (e.g., “meat animals”, “pet animals” e “carne”).

Referências bibliográficas:

Compassion in World Farming Trust. (2006). Trust Stop – Look – Listen: Recognising the Sentience of Farm Animals. Consultado a 3 Fevereiro de 2011 em http://www.ciwf.org.uk/.

Food and Agriculture Organization of the United Nations. (2006). Livestock’s Long Shadow: Environmental Issues and Options. Consultado a 17 de Março de 2014 em http://www.shabkar.org/download/pdf/Livestock_s_Long_Shadow.pdf.

Food and Agriculture Organization of the United Nations. (2013). FAO Statistical Yearbook 2013. Consultado a 5 de Setembro de 2015 em http://www.fao.org/docrep/018/i3107e/i3107e.PDF.

Joy, M. (2010). Why We Love Dogs, Eat Pigs, and Wear Cows: An Introduction to Carnism. San Francisco, CA: Conari Press.

Weitzenfeld, A. & Joy, M. (2014). An Overview of Anthropocentrism, Humanism, and Speciesism in Critical Animal Theory. In A. J. Nocella II, J. Sorenson, K. Socha & A. Matsuoka (eds.), Defining Critical Animal Studies: An Intersectional Social Justice Approach for Liberation (pp. 3-27). New York: Peter Lang.

© Jo-Anne McArthur/We Animals, 2012

Anúncios